
Estudantes de Coimbra também ergueram a voz em Lisboa
Trajados a rigor, com bandeiras da Academia, cartazes com palavras de ordem e até um simbólico caixão, cerca de três centenas de estudantes rumaram ontem a Lisboa, para participarem na manifestação que celebrou o Dia Nacional do Estudante. Poderiam ser mais, mas o período de avaliações em curso dificultou a mobilização, assume Hugo Faustino, um dos promotores da iniciativa.
Elemento da Secção de Fado da Associação Académica, embarcou, a meio da manhã, acompanhado da sua guitarra, para uma manifestação que se impõe, face à «derrocada das políticas educativas». É certo que o Governo “caiu”, mas a comemoração do Dia Nacional do Estudante e a manifestação «fazem todo o sentido», tendo em conta as recentes «declarações do ministro», visando «aumentar o valor da propina».
"O excedente do último Orçamento de Estado dava para acabar com as propinas"
Uma proposta que para Hugo Faustino, aluno da licenciatura em Arqueologia, «não faz sentido».
«Já estamos entre os países da Europa com propinas mais altas», diz, garantindo que o «excedente do último Orçamento de Estado dava para acabar com as propinas e efetuar outros investimentos, no ensino superior ou na saúde». Isto significa que a ideia de que a propina representa um suporte para o financiamento do ensino superior «é falsa», e defende taxativamente o «fim da propina».
«A Constituição defende o ensino gratuito», adianta Ursula Ventura, aluna de mestrado em Estudos Artísticos, que aponta outras questões, «essenciais, designadamente ao nível do alojamento, onde se «cometem barbaridades». «Há estudantes a viver em hosteis, pousadas da juventude e residências privadas e há colegas que não têm onde morar», diz. Faustino dá uma achega, lembrando que, no Natal, alguns estudantes deslocados, nomeadamente das ilhas, foram literalmente «desalojados» das pousadas onde residiam.
«Os preços não são compatíveis com os salários praticados no país», acrescenta, exemplificando com os custos acrescidos de alimentação. Mas Ursula Ventura coloca ainda, na lista das reivindicações, a necessidade de investir no próprio ensino e nas diferentes escolas. «Há falta de condições», faz saber, e exemplifica com a Faculdade de Direito onde «cada vez há mais espaço para os turistas e menos para os estudantes».
"No Conselho Geral, neste momento o Santander manda mais do que nós"
Mais crítico, Hugo Faustino diz que os estudantes «não foram auscultados» relativamente à revisão do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, lembra a luta de Coimbra contra a criação de uma fundação e não tem dúvidas de que hoje em dia «são as empresas que mandam na Universidade». «No Conselho Geral, neste momento o Santander manda mais do que nós», sublinha. Não se trata, salvaguarda, de «denegrir a instituição», mas de procurar que os estudantes «tenham um papel importante na gestão das Faculdades e da Universidade», o que não acontece. Para o aluno de Arqueologia e apaixonado pelo fado, é importante mudar, dar voz aos estudantes, criar uma «cultura de democracia participativa no ensino superior», até para evitar que, cá fora, na sociedade, «cresçam os populismos contra os quais todos lutamos».