
Federação Portuguesa do Pulmão quer avanço nos rastreios e fim do subdiagnóstico
O presidente da Fundação Portuguesa do Pulmão apelou hoje a um avanço nos rastreios do cancro do pulmão, que ainda não arrancou, e da Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC), “importante causa” de internamento e mortalidade que continua subdiagnosticada.
Em declarações à Lusa a propósito do relatório do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias (ONDR) 2024, uma iniciativa da Fundação Portuguesa do Pulmão (FPP), José Alves considerou essencial acabar com o subdiagnóstico da DPOC, sublinhando que apenas trabalha sobre os 150 mil casos identificados.
O ONDR 2024 aponta para uma subida nos internamentos com diagnóstico principal de DPOC (6.462 em 2022 e 7.307 em 2023), mas a percentagem de óbitos por internamento baixou (9,7% em 2022 e 9% em 2023).
Os autores do documento admitem que “as novas terapêuticas e estratégias de vacinação” podem ter contribuído para esta evolução. Contudo, insistem, o subdiagnóstico “continua a ser preocupante”.
“Há mais literacia dos doentes e até dos médicos e é natural que haja um melhor tratamento a nível de ambulatório e, logo, menos gravidade nos doentes internados”, considerou José Alves, que insiste na importância do rastreio e da prevenção primária.
A este propósito, um artigo do coordenador da Unidade de Pneumologia do Hospital Lusíadas Porto, Miguel Guimarães, que integra o relatório, alerta que o papel das novas formas de consumo de tabaco (cigarro eletrónico e tabaco aquecido) na génese da DPOC ainda está por esclarecer.
Sobre o rastreio, o presidente da FPP lembra que “é uma indicação da comunidade científica indiscutível, porque diminui a mortalidade de 25%”, acrescentando: “Temo, sinceramente, que com o cancro do pulmão aconteça o que aconteceu com a Rede Nacional de Espirometria e com a Rede Nacional de Reabilitação Respiratória”.
“Fazem-se muitas coisas que depois ficam na gaveta”, lamentou.
O ex-ministro da Saúde, Manuel Pizarro, tinha anunciado o alargamento dos rastreios ao cancro do pulmão, o segundo mais frequente e o que mais mata em Portugal, mas o projeto nunca avançou. Entretanto, em fevereiro deste ano, a Direção-Geral da Saúde (DGS) determinou a criação de um grupo de trabalho para definir os termos de referência para um futuro rastreio.
Em declarações à Lusa, José Alves insiste na importância da prevenção primária - “mais importante do que tudo é deixar de fumar” – e avisa: “estamos a assistir ao que foi, há 20 e 30 anos, o aumento do hábito de fumar das senhoras”.
Os dados do ONDR indicam que, nas mulheres, os internamentos por cancro do pulmão (sem necessidade de ventilação) mostram um crescimento constante, passando de 995 (2018) para 1.204 (2023), um aumento que pode estar associado à “crescente incidência de cancro do pulmão entre as mulheres”.
“A taxa de crescimento dos internamentos no género feminino é mais acentuada do que no masculino”, indica um artigo da pneumologista Gabriela Fernandes, do Centro Hospitalar e Universitário São João, que integra o relatório. A especialista fala ainda de um “desafio emergente para a saúde pública no que diz respeito ao controlo e prevenção da doença entre mulheres”.
Pela primeira vez, o ONDR apresenta dados da Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS), com informação que surpreendeu o presidente da FPP: “Esperava que fosse fator de mau prognóstico, mas não”.
“Contámos óbitos por cada 100 internamentos. Há uma determinada métrica e, se nos internamentos por SAOS a métrica for menor, é porque é um fator protetivo. Esse foi o facto que me surpreendeu”, disse o pneumologista, acrescentando que o mesmo acontece com a asma e a fibrose quística.
Num texto publicado no ONDR, a pneumologista Maria José Guimarães, especialista em Medicina do Sono, destaca a “redução significativa” ( - 27%) dos internamentos hospitalares por SAOS entre 2018 e 2023, sublinhando que tal pode traduzir um “melhor controlo da doença em ambulatório”, com “mais diagnósticos precoces e tratamentos atempados”.
“Para isso contribuem as consultas de apneia de sono, que são solicitadas pelos cuidados primários de saúde cada vez mais”, escreve.